terça-feira, 17 de novembro de 2009

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Jararaca

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Francisco Acioli e Dona Neuma moravam na zona rural da cidade de Serra Branca, interior da Paraíba, e viviam de agricultura no pequeno sítio “Taraquara”. Era uma propriedade de apenas dois hectares, onde plantavam macaxeira e criavam galinhas. Mesmo sendo uma região seca, suas terras era uma das poucas que tinha água. O casal teve apenas uma filha chamada “Aurora”, que nasceu no dia de São José. Quando adolescente casa-se com Antonio das Lembranças, um peregrino que vivia de vender muambas por onde passava. Ela vai embora com o marido e tem um filho, “João Pedro”.

Quando o filhou completou quatro anos eles voltaram a fazenda de seus pais para apresentar-lhes aquele pequeno garoto, era a razão de sua vida. Ao chegar descobrem que seus pais foram assassinados a mando do coronel “Mário Ferraz”, o qual tomou sua propriedade, havia dois poços naturais no pequeno sítio. Aurora vai até a fazenda do coronel e tenta falar com ele, não a recebe. Seu Marido a chama para ir embora, pois aquilo não tinha mais jeito. Ela prometeu pra si mesma que um dia ia voltar e acabar com aquela gente.

João completa dezenove anos e já carrega o mesmo ódio que a mãe guarda do coronel. Todas as noites ela contava historias sobre Seu Chico e Dona Neuma, assim o rapaz aprendeu a amá-los tanto quanto se os tivesse conhecido. Aurora e o filho voltam à fazenda do coronel Ferraz e vão vingar a morte de seus pais e tomar as terras de volta. Chegando lá foram recebidos a bala. Os Jagunços acertaram um tiro na perna da mulher e a estupraram na frente de João, depois atiraram na cabeça dela. O coronel apareceu e mandou que amarrassem o rapaz no tronco. Ele foi açoitado por Mário Ferraz até desmaiar. Os jagunços o largaram numa estrada.

Quando estava à beira da morte na estrada de terra foi encontrado por um bando de homens. Um deles o deu água e mandou que o lavassem e dessem roupas limpas para o rapaz. Quando tornou a si João estava debaixo de uma árvore e o homem que mandou limpá-lo se apresentou e perguntou o que havia acontecido. Ele contou. O homem não ficou impressionado e disse para João que se ele quisesse ficar com eles poderia só que teria de transformar esse ódio em força. João se juntou ao bando e foi embora.

Anos depois João torna-se líder do bando. Tinha passado dez anos de sua vida assaltando homens poderosos e fugindo da polícia. Foram tempos difíceis, mas para ele o que era a dor? Sua mãe foi morta na sua frente e ele não pode fazer nada. A vingança ainda morava no peito daquele que agora era o homem. O bando não era mais tão grande como na época em que o encontraram, contudo todos eram fiéis a João. Decidiu voltar para tomar as terras de sua família e matar o maldito coronel.

João não tinha mais medo da morte. A primeira pessoa que ele matou na vida foi um policial que por pouco não mata a pessoa que tinha o ensinado tudo. Não havia mais dor. Existia apenas um ódio imenso que queria descarregar no tal “Mário Ferraz”. Um dia seu nome deixou de ser João. Quando andavam numa mata o rapaz pisou numa cobra que o picou. Não quis matar a cobra e passou várias noites com febre e calafrios. O homem que o ensinara tudo passou a chamá-lo apenas de Jararaca. Os calos fizeram com que ele se tornasse uma pessoa de poucas palavras e frio.

Jararaca virou o líder do bando depois de uma emboscada dos macacos. Mataram o homem que tanto admirava e somente ele e mais sete homens sobreviveram à chacina. Desde então odeia a polícia tanto quanto a vontade de matar o coronel Ferraz.

O filho de Aurora quer voltar para a casa de seus avós, quer sua morada de volta. O lugar onde sua mãe passou a vida e aprendeu coisas sobre plantas e animais. Mas não estava mais lá a casa. Haviam queimado e ele viu apenas a árvore que sua mãe tanto falara. Nunca havia esquecido aquela planta. Ele e os sete ficaram no lugar por algum tempo e foram direto para a fazenda do tal coronel.

Havia um jagunço na cancela. Este levou um tiro no meio da testa e o bando entrou correndo e atirando no resto dos homens de confiança do coronel. Jararaca entrou pela porta da frente e procurou o coronel na casa. Ele estava deitado numa cama, parecia estar à beira da morte. Jararaca entrou no quarto, olhou bem nos olhos dele e disse:

- Eu sou a tua morte.

Atirou na cabeça do velho doente desprezível . O filho do coronel fugiu antes de ser morto e foi até a guarnição da polícia de Serra Branca. Quarenta macacos foram ao encontro de Jararaca.

Chegaram à fazenda já atirando nos homens do bando, não sobrou um. Apenas Jararaca tinha escapado e se embrenhou na mata. Seu coração não tinha mais a vingança só a dor por ter perdido aqueles que há tempos eram sua família. A polícia iria pagar por aquilo.


Thomas Freitas

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